segunda-feira, 26 de junho de 2017
segunda-feira, 19 de junho de 2017
"Lava-te."
"13 Então chegaram-se a ele os seus servos, e lhe falaram, e disseram: Meu pai, se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? Quanto mais, dizendo-te ele: Lava-te, e ficarás purificado."
Biblía Sagrada; 2 Reis. 5:13
Em <https://www.bibliaonline.com.br/acf/2rs/5> Acesso em 26.05.17
A felicidade de Naamã foi ter dado ouvidos à voz da razão de seus servos. Está claro que ele era um homem digno de estima por sua capacidade de liderança e coragem, como é subentendido no versículo primeiro do mesmo capítulo; provavelmente era um homem justo e bom (ainda que orgulhoso), para ter conquistado o amor de seus servos, pois até a menina israelita desejava o bem do seu senhor.
Naamã estava indignado por achar que estava sendo humilhado pelo profeta Eliseu. Entretanto, para seu bem, entra em cena seus servos, que o queriam, e com sabedoria o fazem ver o extremamente vantajoso benefício e o insignificante custo para obtê-lo: "Meu pai, se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? Quanto mais, dizendo-te ele: Lava-te, e ficarás purificado." Que maravilha de frase! Que maravilha de conselho!
Parece que os servos sabiam da intenção de Naamã de que , se preciso fosse, executaria grandes sacrifícios, financeiros certamente ,e talvez até físicos,para obter a cura. Mas, ele estava preparado apenas para atitudes externas, e não para atitudes internas que purificam as externas.
Um orgulho tolo e autodestrutivo (como todos os orgulhos) toma conta da mente e do coração de Naamã, e ele iria perder a cura, tão grande dádiva, simplesmente por se achar merecedor de algum tipo de deferência ou reverência especial por parte do profeta.
Entretanto, os servos dele foram "cirúrgicos": "Meu pai, se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? "Meu pai", tratamento respeitoso, que coloca o falante como inferior ao objeto do vocativo, sendo que, como normalmente ocorre, o servo é, moral e intelectualmente, quase sempre superior ao seu senhor; ou ao menos, de sua posição, tem melhor perspectiva do que ele.
E continuam "se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias?" : Não vieste preparado para fazer o que te fosse pedido, grande ou pequeno, fácil ou difícil? Aqui, Naamã já começou a refletir. Então seus servos arrematam: "Quanto mais, dizendo-te ele: Lava-te, e ficarás purificado." . Senhor, ele apenas te disse: lava-te e estarás curado, serás limpo desta doença que te entristece. Ele não pediu nada mais de ti, nem um braço ou um olho, ou um filho, ou tuas riquezas materiais; não, nenhuma dessas coisas. Somente isto: Tome um banho (ou sete)! e limpeza total te será concedida. Para quê precisas vê-lo? Teu interesse está na cura, não no profeta em si. É bem verdade que o profeta é um instrumento de Deus e por isso deve ser respeitado.
Realmente, na prática, era apenas um simples banho (ou sete banhos). Mas o homem, por mais impuro que seja ou esteja, ainda busca algo em si de que possa orgulhar-se. Naamã, grande capitão do exército da Síria, estava acostumado às demonstrações de respeito vindas de todos. Agora, como necessitado, ainda assim queria ser tratado como um superior. (Que coisa é o ser humano... Mas Deus é misericordioso.)
Mesmo assim, ele, por deixar de lado o sentimento de orgulho, primeiro, ouvindo seus servos, e segundo, obedecendo a orientação do profeta, obteve a milagrosa cura. Pela humildade, os servos obtiveram a aceitação de Naamã, e este, a cura.
Entretanto, os servos dele foram "cirúrgicos": "Meu pai, se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? "Meu pai", tratamento respeitoso, que coloca o falante como inferior ao objeto do vocativo, sendo que, como normalmente ocorre, o servo é, moral e intelectualmente, quase sempre superior ao seu senhor; ou ao menos, de sua posição, tem melhor perspectiva do que ele.
E continuam "se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias?" : Não vieste preparado para fazer o que te fosse pedido, grande ou pequeno, fácil ou difícil? Aqui, Naamã já começou a refletir. Então seus servos arrematam: "Quanto mais, dizendo-te ele: Lava-te, e ficarás purificado." . Senhor, ele apenas te disse: lava-te e estarás curado, serás limpo desta doença que te entristece. Ele não pediu nada mais de ti, nem um braço ou um olho, ou um filho, ou tuas riquezas materiais; não, nenhuma dessas coisas. Somente isto: Tome um banho (ou sete)! e limpeza total te será concedida. Para quê precisas vê-lo? Teu interesse está na cura, não no profeta em si. É bem verdade que o profeta é um instrumento de Deus e por isso deve ser respeitado.
Realmente, na prática, era apenas um simples banho (ou sete banhos). Mas o homem, por mais impuro que seja ou esteja, ainda busca algo em si de que possa orgulhar-se. Naamã, grande capitão do exército da Síria, estava acostumado às demonstrações de respeito vindas de todos. Agora, como necessitado, ainda assim queria ser tratado como um superior. (Que coisa é o ser humano... Mas Deus é misericordioso.)
Mesmo assim, ele, por deixar de lado o sentimento de orgulho, primeiro, ouvindo seus servos, e segundo, obedecendo a orientação do profeta, obteve a milagrosa cura. Pela humildade, os servos obtiveram a aceitação de Naamã, e este, a cura.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
Por que o sofrimento?
Ora, sem ele, não há desenvolvimento, não há evolução, não há melhoria, não há purificação, não há sublimação, não há o reconhecimento da própria insignificância. Dizem "Sem dor, sem ganho." Parece-me correto.
Por que crer em Deus?
1 - Por causa da Natureza e suas relações;
2 - Por causa da mente humana e suas relações;
3 - Por causa das limitações humanas;
4 - Por causa da vulnerabilidade humana; e
5 - Por causa da morte.
Só por isso.
2 - Por causa da mente humana e suas relações;
3 - Por causa das limitações humanas;
4 - Por causa da vulnerabilidade humana; e
5 - Por causa da morte.
Só por isso.
"Quando o povo quer, ..."
Hm...ráRá......
RÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁ...
RÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁ...
A todos
Deus prova o rico com a riqueza e o pobre com a pobreza; prova com o prazer e com a dor; prova no excesso e na falta. Todos estão sendo provados ainda que não pareça.
Memento Mori
A infelicidade da vida "feliz" é que ela terminará. A felicidade da vida "infeliz" é que também ela terá fim.
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Perspicaz
Toda arte é baseada no poder de observação. E pode-se observar através de qualquer dos sentidos. Se não "vê", "ouve" e "sente", não pode ser um artista.
O outro
O orgulho vem da comparação entre semelhantes. Sem o outro, não surge o desejo ou o sentimento de superioridade; mas também impossibilita o surgimento do amor.
Temor
Há governantes que fazem o povo florescer na prosperidade, outros, por puro sentimento de superioridade e vingança preconceituosa, lançam o povo num desnecessário mar de miséria.
Proposital
Devemos dar graças a Deus pelo que dói, pelo que não dói, pelo que faz doer e pelo que faz deixar de doer. Ele sabe.
terça-feira, 13 de junho de 2017
Ganância
O apego ao possuir ,invariavelmente, leva a alma a tornar-se pesada, quase tangível, quase orgânica, fétida.
O conforto
É difícil não se orgulhar quando, numa comparação, estamos em melhor situação que outro. Pode-se fingir, mas o que importa são as práticas internas e externas que o sentimento de orgulho provoca. O conforto é um sutil erosivo espiritual.
Preparação
Antes de aumentar a carga, visando ao melhoramento, deve-se ajustar e fortalecer a estrutura, sob pena de desabamento. O mesmo acontece com o povo.
Não-Nietzsche
Sempre pensei que a filosofia servisse para elevar o espírito e não para o fazer descer à animalidade.
Falsa bênção para falso crente
Se tua prosperidade material te faz sentir-se abençoado em relação ao teu irmão, mas não te incita a ser agente da providência para com ele, não és, com certeza, verdadeiramente abençoado por Deus.
Talvez da saúde que não terá
"Eu não preciso de bens materiais nem intelectuais, nem de honras, nem de glórias!", disse o moribundo.
Determinismo e Livre-arbítrio
O de vida determinada já está salvo; aquele que pode escolher, não necessariamente.
Não importa
Não escrevo verdades, e, como qualquer que escreve interpretações, escrevo interpretações que podem ser verdades. O que você acha?
A verdade absoluta
Ela não importa porque não é alcançável na vida material. A verdade verdadeiramente importante é a verdade prática, ou seja, aquela que efetivamente nos é possível fazer uso. Mas não nos enganemos, pois até esta é de dificil e escassa utilização em determinados âmbitos da vida. Entretanto, há quem dê demasiado e rigoroso valor a essa "verdade real", a verdade pura; porém que importa, que diferença ela exerce na prática? Trabalha-se com as ferramentas de que se dispõe, não outras.
Simples
A maneira correta de tratar a Filosofia e a Ciência é ter em mente que são criações humanas, e o ser humano, criação de Deus.
Autor
A Fé só existe quando direcionada a um ser superior, autônomo e capaz de agir intencional e racionalmente.
Um, Dois ou Três
Suponhamos que todos tenham certeza sobre a sua condição de único ou de ser um dos dois ou dos três últimos: que importância teria a vida para o último ser humano vivo? E para os dois últimos? E se fossem três?
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Shibumi: um foco monacal
“Viva isolado e estude shibumi.” – p. 113.
Acredito que este isolamento, de que a citação fala, não seja efetivamente buscar morar num eremitério (ainda que não haja um descarte dessa ideia). Antes, penso que seja evitar companhias que, por suas atitudes, personalidade e visões de mundo, possam atrapalhar o desenvolvimento pessoal do "estudante" de Shibumi.
Este isolamento deve prover as condições necessárias para uma real focalização no objetivo, que é o aprimoramento e evolução pessoal em determinada área.
A orientação é para viver isolado e estudar Shibumi; o propósito maior da vida deve ser atingir o estado de Shibumi através do estudo nos planos teórico, prático e reflexivo. Nisso acho que haja semelhanças com aqueles que decidem ingressar num monastério: a busca do autodesenvolvimento espiritual, purificação e entrega. Rituais pessoais deverão ser gerados. Há que se tornar algo monge neste mister.
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
Shibumi: uma busca vantajosa
“Se algum dia conseguirá alcançar a profunda simplicidade que é o shibumi, é uma coisa questionável. Para se certificar, procure-o.” – p. 98.
Shibumi é um estado a alcançar, e este nível de desenvolvimento não é facilmente obtido. Observemos que o excerto "se algum dia" nos leva a perceber que o tempo empregado na busca do Shibumi é bastante longo, e o sucesso na empresa, duvidoso.
Profunda" é o atributo da simplicidade que se almeja aqui. Isso quer dizer que neste processo de busca, passa-se por vários níveis de simplicidade, da mais superficial à mais profunda. Assim sendo, sempre há algum grau de desenvolvimento efetivo; não há perda.
A capacidade pessoal de alcançar o Shibumi é "questionável", no entanto, "para se certificar, procure-o." O fato de ser um potencial pessoal não significa que , de fato, seja alcançável pelo indivíduo; atentemos para o fato de que a ideia do termo potencial, é de possibilidade, não de certeza. De qualquer forma, para ter clara ciência sobre poder ou não obtê-lo, é preciso buscá-lo.
Se no fim da vida ainda não o houver alcançado, certamente estarás num muito melhor estado que o inicial.
Se no fim da vida ainda não o houver alcançado, certamente estarás num muito melhor estado que o inicial.
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
Shibumi: um caminho pessoal
“Em busca do shibumi, ele poderia sobressair de forma invisível, sem atrair a atenção e a vingança das massas opressivas.” – p. 82.
Aqui encontramos a orientação para a não exposição do próprio nivel de desenvolvimento (e do processo de busca) ao público. "Em busca do shibumi" sobressai-se "de forma invísivel", não atrai atenção nem vingança, que creio eu, seja algo de inveja e tentativa de cerceamento por uma "cultura" hegemônica.
A evolução pessoal é fator particular do indivíduo, e não é motivo para orgulho e ostentação. Talvez, no máximo, possa ser compartilhado com pessoas que estejam em suas próprias buscas do shibumi. A "invisibilidade" dá condições de não sofrer interferências externas intencionalmente danosas.
A evolução pessoal é fator particular do indivíduo, e não é motivo para orgulho e ostentação. Talvez, no máximo, possa ser compartilhado com pessoas que estejam em suas próprias buscas do shibumi. A "invisibilidade" dá condições de não sofrer interferências externas intencionalmente danosas.
Por "massas opressivas" entendo serem as representadas por pessoas comuns, não dedicadas à elevação pessoal, que não buscam a excelência na modéstia. É a mediocridade mundana. É culto ao parecer sem ser. É a massa dos que lutam contra a purificação, a evolução e o aperfeiçoamento espiritual, moral, prático e intelectual (intelectual no caminho da sabedoria, e não do conhecimento frio).
Levando em conta que shibumi é algo essencialmente pessoal, não necessita (ou não deve) ser apregoado. Na arte, o não dever não é aceitável, pois o artista deve mostrar seu trabalho para que a arte aconteça. E ela só acontece com a participação do fruidor. Uma obra não revelada é inexistente, por mais perfeita que seja. A arte deve ser compartilhada. Portanto, penso que shibumi, no campo das artes, diz respeito à autonomia do artista nas suas escolhas, inclinações e busca do sentido de sua própria arte.
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
Lapidador
“Aperfeiçoar e corrigir é o direito, o dever do professor.” – p. 111.
É um direito, para que não seja criticado; e é um dever, para que não se omita.
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
O matemático-poeta, a poesia-ciência e a matemática-arte
A análise seguinte é feita a partir de citações do livro Shibumi, do escritor Trevanian.
“A pessoa tem de ser tanto um matemático quanto um poeta. Como se a poesia fosse uma ciência ou a matemática uma arte.” - p. 76.
Aqui, Nikolai Hel, personagem principal do livro, quando ainda criança, dá sua opinião sobre as qualidades que um jogador de Go, um antigo e complexo jogo de tabuleiro chinês, deve ter. O fato de ele ser criança, naquele momento, não tira a pertinência e a profundidade do que disse. Isso é percebido até pelo mentor, pai-adotivo de Nikolai, Kishikawa-san.
O jogador deve “de ser tanto um matemático quanto um poeta.” O matemático é aquele que tem apreço pela abstração que se torna tangível pela fórmula, pelo gráfico; por sua aplicação prática; pela lógica pura, pela aplicação (e criação) de ferramentas matemáticas e pela prova da validade do método e da verdade dos resultados obtidos através dessas ferramentas.
Já o poeta, que também tem apreço pela abstração, mas de forma diferente da do matemático, pois aquele busca expressar a beleza abstrata dos sentimentos por meio das palavras (podemos aqui estender a essência do poeta para todo artista, quer faça uso da cor, da forma, do volume, do gesto, do movimento, do som, etc). Nesse caso, a percepção do próprio sentimento ou a busca por interpretar o sentimento do outro faz com que o poeta sinta o desejo de expressá-lo com beleza.
Continuando: “Como se a poesia fosse uma ciência ou a matemática uma arte.” A poesia não é ciência, porque não necessariamente se baseia em processos de comprovação e execução rígidos, mas passa pelo filtro da personalidade, do conhecimento e da idiossincrasia do poeta. Sendo assim, um mesmo estímulo desencadeará variadas expressões formais em indivíduos diferentes. Mas, aqui, creio eu, a poesia como ciência é a necessidade do jogador conseguir, a partir da configuração estética e dialógica do jogo naquele momento, traçar estratégias que harmonizem a “fórmula” da jogada com o sentimento expresso pelo estado do jogo, ou seja, pelo nível de dificuldade da situação que o jogador está exposto naquele dado momento, dentro do jogo.
A matemática como arte é o uso das possibilidades e, digamos, dos mecanismos matemáticos, como ferramentas de expressão de beleza e harmonia. Aqui o uso dessas ferramentas, que são puramente intelectuais, são ditados pela percepção da beleza sentida pelo jogador durante a partida. A matemática não é uma arte, já que a arte possui muito maior liberdade de expressão e de poética.
Portanto, não é uma questão de somente fazer jogadas exitosas, mas sim a sensação pessoal de que elas foram as mais belas naquela situação. Entendamos como belas as jogadas harmoniosas e eficientes, algo como epifanias “voluntárias”. A matemática como arte fala sobre o uso mental de artifícios lógico-matemáticos durante a partida, pelo jogador; mas um uso não literalmente racional, e sim intuitivo como meio de gerar beleza através do jogo.
Um jogador matemático-poeta , ou seja, o que faz uso da poesia-ciência e da matemática-arte, é aquele que, invariavelmente, chega a melhor jogada, porque ela está em harmonia com a lógica e a intuição, com o belo e com o provável.
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
Shibumi: do emaranhado à linha
[para alcançar o shibumi] – “Significa que se deve ultrapassar o conhecimento e alcançar a simplicidade.” – p. 82.
A simplicidade só vem a partir da profunda compreensão dos fatores (ou aspectos) que atuam sobre determinado algo. Só é possível simplificar aquilo que se compreendeu, ou seja, que já se assimilou. Para alcançar o Shibumi "se deve ultrapassar o conhecimento e alcançar a simplicidade.". Parece claro que "simplicidade" seja o produto do processo de sobrepujar o conhecimento, significando atingir um estado de fina adequação técnico-prático-reflexiva em que a "obra", quer seja material ou psicológica, seja exata.
Com "exatidão", quero dizer completa e essencial, que diga plenamente o que tem a dizer, com sobriedade e naturalidade, sem excesso de nenhuma espécie.
A simplicidade obtida, muito longe de ser medíocre, é o substrato purificado de um complexo processo interno-externo.
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
Necessidade espiritual
"Estamos todos deitados na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas."
Oscar Wilde
É, estamos na "sarjeta" da precária condição humana. Na "sarjeta" das condições inelutáveis do estado de ser humano, no que diz respeito à materialidade e a fatores psicológicos, morais e sociais (muitos são o que são, sempre foram e sempre serão), nada podemos fazer. Ainda assim, mesmo na condição humana, existe a possibilidade de evoluir espiritual, moral e intelectualmente.
Estamos na lama, "mas alguns de nós olham para as estrelas." , e "olham para as estrelas" em busca de transcendência, de sair da animalidade o máximo possível, de elevar a parte espiritual e moral (e algo de intelectual) a maiores alturas.
"Estamos todos deitados na sarjeta", não nos é possível levantar, todavia não precisamos chafurdar, além do impossível de se evitado, no lamaçal da ignomínia humana; e muito menos ter como ideal de vida o prazer pela lama e pelo enlamear-se.
Aqueles de nós que "olham para as estrelas" (uns, por já terem nascido com o olhar direcionado ao céu, outros que, por se esforçar em se virar, tirando o olhar do enlameado, passam a mirar as estrelas) sentem necessidade de limpeza interior, e os meios para obter essa limpeza ,obviamente, não é encontrada aqui. Eles estão fora, num plano diferente, não material, que só é possível alcançar através do espírito. Esses que almejam essa evolução espiritual cultivam hábitos e atitudes internos e externos virtuosos.
As estrelas, por sua distância, já demonstram a dificuldade da empreitada, e pelo seu brilho, a natureza luminosa dos resultados. Os benefícios dessa busca são interiores na sua maioria, e a recompensa final não pode ser auferida enquanto estamos "na sarjeta".
Estamos na lama, "mas alguns de nós olham para as estrelas." , e "olham para as estrelas" em busca de transcendência, de sair da animalidade o máximo possível, de elevar a parte espiritual e moral (e algo de intelectual) a maiores alturas.
"Estamos todos deitados na sarjeta", não nos é possível levantar, todavia não precisamos chafurdar, além do impossível de se evitado, no lamaçal da ignomínia humana; e muito menos ter como ideal de vida o prazer pela lama e pelo enlamear-se.
Aqueles de nós que "olham para as estrelas" (uns, por já terem nascido com o olhar direcionado ao céu, outros que, por se esforçar em se virar, tirando o olhar do enlameado, passam a mirar as estrelas) sentem necessidade de limpeza interior, e os meios para obter essa limpeza ,obviamente, não é encontrada aqui. Eles estão fora, num plano diferente, não material, que só é possível alcançar através do espírito. Esses que almejam essa evolução espiritual cultivam hábitos e atitudes internos e externos virtuosos.
As estrelas, por sua distância, já demonstram a dificuldade da empreitada, e pelo seu brilho, a natureza luminosa dos resultados. Os benefícios dessa busca são interiores na sua maioria, e a recompensa final não pode ser auferida enquanto estamos "na sarjeta".
Van Gogh
Van Gogh é um gênio da pintura-concepção, e não da pintura-técnica. Ele pintava como só poderia (deveria) pintar, como sua mente o obrigava a pintar, não tinha escolha sem sofrer. Nadar contra a correnteza não fez bem a ele (mas o que ele poderia ter feito?). "Nasceu no tempo errado" dizem.
Ele era um gênio, fato inegável; mas não na pintura como produto material ou como técnica pictórica, e sim na concepção (que nada tem a ver com a técnica em si), e sim no porquê da pintura. A "técnica vangoghiana" era inevitável para ele.
Ele era um gênio, fato inegável; mas não na pintura como produto material ou como técnica pictórica, e sim na concepção (que nada tem a ver com a técnica em si), e sim no porquê da pintura. A "técnica vangoghiana" era inevitável para ele.
Shibumi: o potencial pessoal direcionado
Continuando a análise:
“Não se conquista o shibumi. Descobre-se.” – p. 81.
O Shibumi já está dentro de si; é a potencialidade pessoal. Portanto, não é possível conquistar o que já se possui; o que é possível é tomar conhecimento dessa posse e passar a fazer uso dela. É dito que o Shibumi "não se conquista": isso porque conquistar subentende obter algo que está fora, que, inclusive, pode ser objeto de disputa entre pelo menos duas pessoas. Mas isso não é possível acontecer aqui, já que é algo particular, intrínseco a cada pessoa. Na busca pelo Shibumi, o processo idôneo é o do descobrimento (por meio do estudo, da prática, da reflexão e da dedicação).
Mas como é de se esperar, para descobrir, é preciso estar empenhado numa busca de aquisição e/ou aperfeiçoamento de alguma habilidade e/ou de alguma "ciência". Um elevado nível de dedicação empregado nessa busca despertará o potencial peculiar do indivíduo em relação à atividade escolhida.
O Shibumi "descobre-se.". Vejamos, descobrir significa tirar aquilo que cobre, revelar o que está escondido. O que, porém, pode ocultar o Shibumi do indivíduo? Ora, tudo aquilo que o estudo, a prática, a reflexão e a dedicação eliminam. O estudo remove o manto do desconhecimento; a prática, o da inabilidade; a reflexão, o da superficialidade; e a dedicação, o da falta de propósito e do desleixo.
Após o descobrimento, segue-se no caminho da maestria, que é a profundidade na teoria, na prática e na reflexão, mas tudo isso com o componente fundamental da idiossincrasia; é a plenitude na arte, é o estado de Shibumi.
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
Shibumi: a simplicidade complexa
Continuando, nesta citação está a massa conceitual que define Shibumi:
“Como sabe, shibumi tem muito a ver com um acentuado refinamento sob uma aparência comum. É uma declaração [...], tão verdadeira que não precisa ser real. Shibumi é compreensão, muito mais do que conhecimento. [...]. Na arte, onde o espírito de shibumiassume a forma de sabi, é uma simplicidade elegante, uma brevidade articulada. Na filosofia, onde shibumi emerge como wabi, é uma tranquilidade espiritual que não é passiva; é o ser sem a angústia do vir a ser.” – p. 81.
Vamos à análise:
“Como sabe, shibumi tem muito a ver com um acentuado refinamento sob uma aparência comum.”
A essência do primeiro período está em “(...)um acentuado refinamento sob uma aparência comum.”. Parece-me algo como o complexo aparentando simplicidade: Como o movimento dos ponteiros de um relógio, que não revela o intricado e complexo mecanismo que possibilita esse movimento. Torna-se comum porque se repete e é visto por todos os lados em todos os relógios de ponteiros, mas o segredo do relógio-ponteiro é seu mecanismo interno. O movimento circular dos ponteiros é o efeito dos processos internos da máquina do relógio. Os elementos e processos envolvidos com todas as suas implicações na produção desse movimento, juntamente com o seu efeito, é o Shibumi do relógio. Shibumi é um aperfeiçoamento para uma finalidade, ainda que puramente interior. É um aperfeiçoamento útil, mas nem sempre prático. É a simplicidade originada da complexidade.
Mas e na arte, como isso se dá? Se dá na busca do artista em adequar seu eu à beleza, e não só na busca, mas na efetiva realização material do que foi buscado. Não há que haver necessariamente um grande esforço na confecção material, mas um enorme apuro e esforço na concepção e realização interna. O resultado é consequência. Isso porque “sob um aparência comum” está “um acentuado refinamento”. As obras de Modigliani são um excelente exemplo disso: beleza fruto da simplicidade complexa.
“É uma declaração (...), tão verdadeira que não precisa ser real.”
Declaração é o que é dito, é o que se alega sobre algo, mas talvez ,nesse caso, seja uma declaração especificamente pessoal-interna, ou seja, de si para si mesmo. O indivíduo tem consciência da própria verdade, e ,para isso, não há necessidade de outro ter certeza sobre esta verdade (ou da possibilidade da existência de alguma verdade a ser declarada). Outro ponto importante da citação é “não precisa ser real.” Não precisa, mas pode ser real (na verdade, é sempre real, ao menos quero crer assim. Explico a seguir).
Mas como pode ser verdadeira sem ser real? Penso que real, no texto, quer dizer algo no campo do palpável, do manifesto, do conhecido pelo outro. Algo que alguém saiba ser real é real e concreto para o que sabe, e uma possibilidade, uma incerteza, uma irrealidade talvez, para o que não a conhece,ou melhor, para o que não tem comprovação dela. Sendo assim, é possível algo ser verdadeiro e não ser real, ou seja, ser real e não ser conhecido.
Mas é bem verdade que poderíamos interpretar “não precisa ser real.” como sendo pura presunção do indivíduo. Ele não é o que pensa que é na realidade. Mas aí cai por terra toda a essência de excelência e modéstia do Shibumi. Se presumir a própria excelência traz algum benefício concreto para o presunçoso, não sei. Penso que não, mas... que sei eu?
Mas como pode ser verdadeira sem ser real? Penso que real, no texto, quer dizer algo no campo do palpável, do manifesto, do conhecido pelo outro. Algo que alguém saiba ser real é real e concreto para o que sabe, e uma possibilidade, uma incerteza, uma irrealidade talvez, para o que não a conhece,ou melhor, para o que não tem comprovação dela. Sendo assim, é possível algo ser verdadeiro e não ser real, ou seja, ser real e não ser conhecido.
Mas é bem verdade que poderíamos interpretar “não precisa ser real.” como sendo pura presunção do indivíduo. Ele não é o que pensa que é na realidade. Mas aí cai por terra toda a essência de excelência e modéstia do Shibumi. Se presumir a própria excelência traz algum benefício concreto para o presunçoso, não sei. Penso que não, mas... que sei eu?
“Shibumi é compreensão, muito mais do que conhecimento.”
Tomarei “compreender” como significando ter dentro de si, comportar dentro de si. Faz-se necessário conhecimento externo (reflexão sobre as coisas do mundo) para se chegar à compreensão, todavia esse conhecimento apenas servirá para conhecer o que já estava dentro de si mesmo; ou seja, as potencialidades até então desconhecidas, que é o que Shibumi faz e é, algo como autoconhecimento; mas pontual, focado em determinado sentido (prático, espiritual, intelectual, etc). Creio não haver Shibumi do ser total, não há uma “perfeição pessoal” em todos os campos. Pois creio no “a vida é curta, a arte é longa.” Nota-se que o saber externo é meio para que o saber interno se expresse.
“Na arte, onde o espírito de shibumi assume a forma de sabi, é uma simplicidade elegante, uma brevidade articulada.”
"Na arte, onde o espírito de shibumi assume a forma de sabi, (...)", o espírito, obviamente, é a parte invisível, a parte imaterial, que tem que ser expressa de alguma maneira, para se fazer conhecida, ou seja , o espírito assume uma forma visível, no caso, através do "sabi".
Sabié a beleza da simplicidade formal. O Shibumi na arte não possui rebuscamento, é apenas o que deveria ser, a exata medida.
A frase diz que Shibumi como Sabi "é uma simplicidade elegante". O "dicionário do Google" define elegante como: "que se caracteriza pela harmonia, leveza ou naturalidade.". Uma simplicidade harmônica ou leve, ou natural, ou seja, sem mais do que o necessário, sem afetação, espontânea. Simplicidade é a qualidade daquilo que é simples, que , por sua vez, significa não ser constituído de diversas partes, mas, aqui, é uma simplicidade no que diz respeito ao resultado, ao apresentado; simplicidade como o produto final de uma complexidade interior, oculta.
Shibumicomo Sabi também é "uma brevidade articulada": ou seja, rápida ou curta, porém de muito significado, como uma resposta monossilábica que não deixa dúvida e desencadeia uma longa série de consequências; como um gesto, um sinal que dê completa e clara informação; que seja de compreensão instantânea para o receptor.
"Na filosofia, onde shibumi emerge como wabi, é uma tranquilidade espiritual que não é passiva; é o ser sem a angústia do vir a ser.”
Vejamos: "é uma tranquilidade espiritual que não é passiva" . Ou seja, não é uma tranquilidade inerte, mas uma tranquilidade de caráter atuante no sentido de que busca uma adaptação ativa e conformativa em relação aos estímulos externos. Não é "passiva", pois não permanece "imóvel" sob a ação externa; a tranquilidade permanece, mas ela se adapta à ação, ao estímulo que incide sobre ela.
Ainda é dito que Shibumi como Wabi "é o ser sem a angústia do vir a ser.”. Parece-me que significa ter certeza do que se é, do próprio valor e de ter chegado a um nível considerável de excelência (o nível pessoal de excelência, que não é comparativo). Nisso não podemos considerar que haja algo de vaidade, que seria contrário à ideia de Shibumi, mas que esse sentimento de "plenitude" não seja considerado como um valor de superioridade em face de outrem; e sim que desse autorreconhecimento, verdadeiramente, nasça a real modéstia.
TEXTO DE REFERÊNCIA COMPLEMENTAR¹
Como complemento, em "Wabi Sabi – A arte e a beleza da imperfeição"¹,
Encontramos sobre Sabi:
"O termo [Wabi-sabi] não possui uma tradução concreta em português ou em qualquer outra língua no mundo. Em uma tradução livre, podemos dizer que (...) Sabi é a beleza ou serenidade que vem com o tempo, quando a vida do objeto e sua impermanência são evidenciados pelo desgaste ou por qualquer conserto visível, as rugas do tempo, objetos irregulares e despretensiosos."
Sobre Wabi:
"O termo [Wabi-sabi] não possui uma tradução concreta em português ou em qualquer outra língua no mundo. Em uma tradução livre, podemos dizer que wabi é a simplicidade rústica, uma elegância discreta, frescor e quietude. Pode também se referir a acidentes ocorridos no processo de construção que conferem singularidades ao objeto."
E sobre o conceito de Wabi-sabi:
"(...)nos conectamos ao wabi sabi, que cultiva tudo que é autêntico ao reconhecer três realidades simples: nada dura, nada é completo: nada é perfeito."
"De acordo com Leonard Koren, autor do livro Wabi-Sabi: for Artists, Designers, Poets & Philosophers(...). 'Wabi sabi representa o exato oposto da beleza percebida como algo monumental, espetacular e duradouro. Ele é sobre o secundário, o escondido, a tentativa e o transitório, coisas tão sutis e instáveis que são invisíveis aos olhos medíocres'”.
"A filosofia do wabi sabi abrange tanto as coisas naturais, orgânicas, quanto os objetos feitos pelo homem. Da espiritualidade até as questões de comportamento, hábitos de vida e estética. Se um objeto ou expressão consegue trazer em nós um senso de melancolia serena, intimidade e um anseio espiritual, então isso pode ser considerado wabi sabi."
"Dentro da imperfeição abordada pelo wabi sabi, entram ainda a assimetria, a irregularidade e a modéstia como atributos de beleza. Uma simplicidade funcional onde a forma é ditada pela função e reduzida à sua disposição mais simples.'
[Gostei da ideia de "cultivar tudo que é autêntico"; de "o escondido"; de "coisas tão sutis e instáveis que são invisíveis aos olhos medíocres" ("olhos medíocres"!); de "um objeto ou expressão" que traz "intimidade e um anseio espiritual"; e de "a modéstia como atributo de beleza".]
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
1 - <http://reviewslowliving.com.br/2016/02/17/wabi-sabi-a-arte-e-a-beleza-da-imperfeicao/> Acesso em 13.12.16
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