segunda-feira, 19 de março de 2018

Superfluidades úteis e desenvolvimento da experiência

“Pode adquirir experiência, se tiver o cuidado de evitar superfluidades vazias. Não caia no erro do artesão que se vangloria de possuir vinte anos de experiência na profissão quando, na realidade, só tem um ano... multiplicado por vinte.  – p. 112.


No final das contas, todas as experiências são benéficas, mas apenas quando são aproveitadas para evitar erros futuros e aprimorar-se. A seguir, ponho definições do termo experiência do Dicionário online:
              "Conhecimento, ou aprendizado, obtido através da prática ou da vivência: experiência de vida; experiência de trabalho."; "Modo de aprendizado obtido sistematicamente, sendo aprimorado com o passar do tempo: professor de grande experiência."
Todas essas definições têm seu interesse e ajudam na compreensão do tema, mas, a mim, parece que "Modo de aprendizado obtido sistematicamente, sendo aprimorado com o passar do tempo" é o mais adequado nesse caso. 

Então... existem superfluidades "com conteúdo" benéficas, úteis?


Em "Pode adquirir experiência, se tiver o cuidado de evitar superfluidades vazias." fica claro que é possível não obter experiência (consciente) mesmo passando por determinada vivência. Pois só se adquire experiência (válida, pois é consciente) quando se evita superfluidades vazias(já que estas são vividas como um esquecimento). 


Como definição, superfluidade é a "Abundância inútil"; é o caso "daquilo que é dispensável".O autor do texto, porém, parece fazer diferenciação entre superfluidades úteis (ou utilizáveis) e inúteis ("vazias"). No caso em questão, contrariando o adjetivo "dispensável", leva-nos a crer que toda superfluidade  possa ser indispensável quando seja útil. Mas útil como meio, instrumento auxiliar de evolução e aperfeiçoamento em busca da sabedoria, e não pelas sensações e efeitos momentâneos da experiência da superfluidade. 

Então, o que seriam superfluidades úteis? Creio serem os conhecimentos de conteúdos e práticas que, para si mesmo, ou seja, para uso próprio, pessoal, de afinidade intrínseca para ao próprio caráter, não sejam adequados, já que são, de certo modo, abjetos; mas que por serem de uso corrente dos "vulgares", tornam-se úteis como ferramentas esporádicas. É de se crer que as superfluidades úteis só as são nos casos em que são estudas para efetivo uso futuro, planejado e necessário. Ou seja, dar atenção à superfluidades por si mesmas, mas sem uso prático já estipulado (que nesse caso seriam efetivamente "vazias"), é  perda de tempo e não gera experiência válida. Parece-me que o uso com propósito sábio torna algo mau bom. Do veneno sai o antídoto talvez. 


O texto fala de artesão, que é um "trabalhador manual que trabalha por sua conta". Ou seja, é um indivíduo que trabalha com as mãos, produzindo artefatos, e que tem total responsabilidade pela qualidade destes, já que a perfeição do seu trabalho é o que atrai compradores, o que ,provavelmente, provê os meios para sua subsistência.  

Entretanto, o texto fala do tipo medíocre de artesão: aquele "que se vangloria de possuir vinte anos de experiência na profissão quando, na realidade, só tem um ano... multiplicado por vinte." . Não é um artesão-artista, que busca aperfeiçoamento e sublimação para o seu trabalho. Mas é aquele que é um repetidor puro e simples do pouco que aprendeu, pois de real experiência "...só tem um ano... multiplicado por vinte." . Um ano apenas de estudo, prática e reflexão. Todos os outros 19 anos foram de pura repetição do que se aprendeu naquele único ano inicial; nada foi desenvolvido, nada foi inovado, nada foi melhorado, nada foi aprofundado. Velhas regras e velhas práticas (não que estas sejam inúteis e certamente muitas devam ser tradicionalizadas, mas aqui estamos falando da preguiça em buscar aperfeiçoamento possível.).

Muito provavelmente, no decorrer dos anos de prática profissional desse artesão (hipotético, mas verossímil), surgiram oportunidades de evolução e aperfeiçoamento do seu trabalho, mas como tudo indica, ele não fez caso delas.  

Sendo assim, experiência é evolução pelo uso do experienciado, buscando o melhor resultado na resolução para problemas futuros semelhantes ou correlatos.


Referência bibliográfica:

TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979 [?].

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