Eclesiastes, alguns versículos do capítulo 2
Bíblia Sagrada; Eclesiastes. 2
Em <https://www.bibliaonline.com.br/acf/ec/2> Acesso em 30.04.2020
"1. Disse eu no meu coração: Ora vem, eu te provarei com alegria; portanto goza o prazer; mas eis que também isso era vaidade.
2. Ao riso disse: Está doido; e da alegria: De que serve esta?
3. Busquei no meu coração como estimular com vinho a minha carne (regendo porém o meu coração com sabedoria), e entregar-me à loucura, até ver o que seria melhor que os filhos dos homens fizessem debaixo do céu durante o número dos dias de sua vida."
Viver pelo prazer, buscar a todo custo o prazer terreno, valorizar a vida pelo prazer que se possa sentir, a capacidade de agir em busca do prazer... ora, a vida terá fim, consequentemente o prazer também o terá. O prazer terreno é vaidade por não ser eternamente intermitente (nem talvez vitalício), isto é, por não alternar com momentos de descanso indiferente para sempre. Isso não se aplica à vida eterna, dada no pós-morte, para algumas religiões, aos escolhidos, e aos merecedores, para outras. Já que o gozo eterno, a felicidade e alegrias eternas são reais e contínuas no plano celestial, sem levar ao tédio do prazer. É evidente que uma vida sem momentos de prazer, mesmo que mínimos e escassos, não é possível viver. A mente e o corpo não suportam dor e aflições ininterruptas. Há que haver momentos de alívio.
Todo sentimento de alegria é enganoso. A sensação de bem-estar, de importância e superioridade levam a uma falsa percepção de que estamos realmente bem (para além de toda a possibilidade de dor), não importando os meios utilizados, a quem defraudamos ou ferimos para obter tal satisfação. Bom, claro que isso vai da filosofia de vida que rege cada indivíduo. Há filosofias falsas, calcadas no egoísmo puro e outras mais altruístas. Busquemos as do segundo grupo. A alegria engana por nos dá a falsa impressão de onipotência e de autossuficiência.
Há quem diga que "só existe humor negro", isto é, aquele que se origina de situações de escárnio e depreciação de diversos tipos. O riso normalmente está ligado a um sentimento de superioridade sobre o outro.
Procurar a alegria no "vinho", nas drogas é outra forma de se enganar. O fim do sujeito é a morte física, e com ela o fim das alegrias e tristezas materiais (aqui materiais abarca o físico e psicológico).
"4. Fiz para mim obras magníficas; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas.
5. Fiz para mim hortas e jardins, e plantei neles árvores de toda a espécie de fruto.
6. Fiz para mim tanques de águas, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores.
7. Adquiri servos e servas, e tive servos nascidos em casa; também tive grandes possessões de gados e ovelhas, mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém.
8. Amontoei também para mim prata e ouro, e tesouros dos reis e das províncias; provi-me de cantores e cantoras, e das delícias dos filhos dos homens; e de instrumentos de música de toda a espécie.
9. E fui engrandecido, e aumentei mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria.
10. E tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma; mas o meu coração se alegrou por todo o meu trabalho, e esta foi a minha porção de todo o meu trabalho.
11. E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol."
O realizar, o efetuar, o fazer, o crescer, o ter, o "ser", o empreender, o fruir, o prosperar, o enriquecer...seja no que for é vaidade! Vai passar. Todo o seu trabalho, todo esforço, ainda que beneficie a outros, não será de utilidade eterna. Então não devo fazer? Não, faça, apenas não se orgulhe. Trabalhe como uso do seu tempo.
"13. Então vi eu que a sabedoria é mais excelente do que a estultícia, quanto a luz é mais excelente do que as trevas.
14. Os olhos do homem sábio estão na sua cabeça, mas o louco anda em trevas; então também entendi eu que o mesmo lhes sucede a ambos.
15. Assim eu disse no meu coração: Como acontece ao tolo, assim me sucederá a mim; por que então busquei eu mais a sabedoria? Então disse no meu coração que também isto era vaidade.
16. Porque nunca haverá mais lembrança do sábio do que do tolo; porquanto de tudo, nos dias futuros, total esquecimento haverá. E como morre o sábio, assim morre o tolo!
17. Por isso odiei esta vida, porque a obra que se faz debaixo do sol me era penosa; sim, tudo é vaidade e aflição de espírito.
18. Também eu odiei todo o meu trabalho, que realizei debaixo do sol, visto que eu havia de deixá-lo ao homem que viesse depois de mim.
19. E quem sabe se será sábio ou tolo? Todavia, se assenhoreará de todo o meu trabalho que realizei e em que me houve sabiamente debaixo do sol; também isto é vaidade.
20. Então eu me volvi e entreguei o meu coração ao desespero no tocante ao trabalho, o qual realizei debaixo do sol.
21. Porque há homem cujo trabalho é feito com sabedoria, conhecimento, e destreza; contudo deixará o seu trabalho como porção de quem nele não trabalhou; também isto é vaidade e grande mal.
22. Porque, que mais tem o homem de todo o seu trabalho, e da aflição do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol?
23. Porque todos os seus dias são dores, e a sua ocupação é aflição; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade."
A sabedoria é melhor que a estupidez. Ao que vê e ao que nao vê sucede igual no que diz respeito ao fim da vida. Não acontece sempre coisas boas com que se porta bem, às vezes sucede o mesmo que ao deliquente. A verdadeira recompensa não é no período terreno da existência do indivíduo. Disse o pregador: "odiei todo o meu trabalho", isso porque estava com a mente no resultado e benéficios para os que virão depois dele, e não para ele em si. Ele morrerá, seu trabalho e esforços trarão proveito a outros, mas não a si que não estará mais aqui para ver ser seu efeito. Poderíamos dizer que é um pensamento egoísta, porém parece-me que o eclesiastes é melhor homem do que eu e não vou julgá-lo. Esta "aflição do coração", acho, surge diante do orgulho humano sobre a realização da obra. Sem esse orgulho, o homem está liberto dessa aflição. Poderia ter comentado sobre outras ideias presentes no texto, mas estou cansado e não motivado agora. Além do mais, o tesouro é o que encerram os versículos, não minhas palavras.
"24. Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer com que sua alma goze do bem do seu trabalho. Também vi que isto vem da mão de Deus.
25. Pois quem pode comer, ou quem pode gozar melhor do que eu?
26. Porque ao homem que é bom diante dele, dá Deus sabedoria e conhecimento e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte, e amontoe, para dá-lo ao que é bom perante Deus. Também isto é vaidade e aflição de espírito."
Ao que é bom Deus felicidade, e ao pecador, o orgulho egoísta pelo próprio trabalho. O eclesiastes parece padecer desse tipo de mal, é, talvez ele não seja tão correto. No entanto, suas reflexões nos são valiosíssimas!

