quinta-feira, 16 de julho de 2020

Tudo é vaidade - Ec. 1

Eclesiastes, alguns versículos do capítulo 1

 Bíblia Sagrada; Eclesiastes. 1
Em <https://www.bibliaonline.com.br/acf/ec/1> Acesso em 30.04.2020



"Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?"

                                                                                                                           Eclesiastes 1:3

Além dos proveitos de subsistência diretos resultantes do trabalho, tem o "proveito" imaginário daquilo que o 'trabalhador' ache que tenha seu trabalho. Mas a questão é mais profunda. Se vais morrer, que valor teria seu trabalho além do da subsistência? O beneficiar os que ficam não seria um bom proveito do trabalho feito em vida? Pensar que não há proveito no trabalho benéfico ao próximo não é estar sendo egoísta e mesquinho?


"Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir."                 Grifo meu.

                                                                                                                             Eclesiastes 1:8

Creio que "trabalhosas" signifique enfadonhas por serem repetitivas e ainda assim obrigatórias; há que serem realizadas, há que serem concretizadas, concluídas de novo e de novo. Não é possível exprimir as (reais) razões transcendentais para a existência das coisas e dos processos do mundo e da vida, não sei se me explico.
Há sempre pessoas que desejam o material, o palpável, o sensível; e por não  buscarem algo além, satisfazem-se com o aqui, com os prazeres mundanos. Os olhos e ouvidos, o corpo não se cansam de sentir, para os carnais pelo menos.  


"Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito."

                                                                                                                                Eclesiastes 1:14

É, tudo é vão e aflição se levarmos em consideração que não poderemos usufruir dos benefícios materiais, sociais etc. da vida terrena indefinidamente. Ainda que se tenha o próximo como beneficiário do nosso trabalho, só teremos o conhecimento dos resultados (creio) e prazer desse trabalho enquanto estivermos em vida. Aflição porque a necessidade imposta (ou autoimposta) de buscar as coisas materiais levam ao prazer, mas também ao desespero da obtenção, da realização, do sentimento ilusório de poder. No fim, trabalho em vão. E os favorecidos pelos efeitos de nossos trabalhos? Eles também morrerão, como no fim, toda humanidade morrerá, e seu legado, seu trabalho será totalmente vão. E como todos morrerão um dia, todo trabalho é vão. Então não devemos trabalhar, buscar? Eu diria que trabalhe, siga sua predisposição, apenas tenha em mente o não se orgulhar e que, no final, tudo realizado aqui materialmente é vão.
   

"Aquilo que é torto não se pode endireitar; aquilo que falta não se pode calcular."

                                                                                                                                Eclesiastes 1:15

As coisas são como são, são como deveriam ser. As que são modificáveis, assim deveriam ser. "Aquilo que falta" para o alterável se tornar o que deverá ser não é calculável; apenas se saberá quando chegar a sua última condição.


"17. E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e vim a saber que também isto era aflição de espírito.
18. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor."

                                                                                                                               Eclesiastes 1:17,18

Conhecer as diversidades de mentes, sadias ou não; empreender estudos que levem ao conhecimento e compreensão das potencialidades e aflições mentais humanas, objetivando o saber para uso prático e/ou intenções terapêuticas, não tenho dúvida de que possa trazer alívio (ou aflição ao indivíduo) para o que padece de qualquer distúrbio e/ou  necessite de suplemento que otimize seu desempenho mental nas atividades da vida. Contudo, conhecimento traz clareza e verdade (pelo menos até o nível que nos é possível atingir), o que afasta (na medida do possível) a fantasia.
O termo "sabedoria" aqui parece significar conhecimento científico (e talvez empírico, por que não?), visto que ele nos leva ao maior conhecimento, e à menor possibilidade de atenuar o impacto da verdade das coisas, obtendo consolação através da ignorância ingênua ou da aceitação da ficção. Saber clareia a visão, nos mostra a realidade nua e não nos é mais possível o retorno ao conforto do não saber. O texto usa os termos "muita", em relação à sabedoria, e "aumentar" em relação ao conhecimento, o que nos leva a crer que sabedoria e conhecimento moderados trazem alívio; o mal estaria no excesso. A maior compreensão da realidade das coisas traz maior enfado e dor.








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