quarta-feira, 25 de abril de 2018

Produtores do necessário


“A educação e a tendência conjugaram-se para fazer com que Nikolai respeitasse e gostasse de todos os membros das verdadeiras classes: fazendeiros, artesãos, artistas, guerreiros, eruditos, padres. Porém, não conseguia sentir mais nada além de desprezo pela classe artificial do negociante, que cava a vida comprando e vendendo coisas que não foram criadas por ele, que coleciona poder e riqueza sem proporções a seu bel-prazer e que é responsável por tudo o que é supérfluo, por toda mudança sem progresso, por todo consumo sem uso.” - p. 128.



A educação e a tendência": Nikolai recebeu uma educação que, aliada à sua inclinação natural em consonância com aquela "sabedoria inata" (não comum à maioria das pessoas), o fez respeitar os membros das "verdadeiras classes" e gostar deles. O respeito sentido por Nikolai pelos indivíduos representantes dessas classes, creio, está baseado no fato de ele considerar tais profissões dignas de admiração pelos frutos que produzem. E no que diz respeito a ele gostar daqueles profissionais, penso ser natural sentir afeição admirativa por quem escolheu e professa ofícios que consideramos dignos e que são benéficos e necessários à vida da comunidade. 

Tratemos agora da expressão "membros das verdadeiras classes"; que seria "classe"? Segundo o Dicio: dicionário online de português, classe é o "Conjunto de pessoas que têm a mesma função, os mesmos interesses ou a mesma condição numa sociedade". Sendo assim, a classe dos negociantes não deixa de ser uma classe; entretanto, no texto, é dito que a classe do negociante é "artificial", em oposição às "verdadeiras classes".

Façamos, portanto, a diferenciação entre elas: primeiro, que seriam as "verdadeiras classes"? O texto fala do "...negociante, que cava a vida comprando e vendendo coisas que não foram criadas por ele"; aqui já podemos ver uma das diferenças entre as "classes verdadeiras" e a "classe artificial do negociante": as classes verdadeiras criam e produzem seus próprios produtos, elaboram obras próprias e ,de alguma forma, sempre arriscam algo; inclusive a vida como no caso dos guerreiros; zelo que a "classe artificial do negociante" não tem¹, pois apenas é revendedora do que fora produzido, criado e elaborado por outros.

Temos, portanto, "fazendeiros, artesãos, artistas, guerreiros, eruditos, padres." como exemplo de profissões respeitáveis, com representantes provavelmente (levando em consideração que realmente sejam indivíduos que dignifiquem suas profissões) respeitáveis. Todas produzem algo ainda que seja algo imaterial. Os fazendeiros são produtores de toda sorte de alimentos naturais. Suas contribuições para os demais indivíduos são óbvias. Os artesãos são os responsáveis pela confecção de toda sorte de instrumentos, utensílios, objetos etc. úteis a todos. Os artistas produzem peças de beleza, que elevam o espírito humano e o torna mais sensível e atento à inteligência revelada pela natureza em todas as suas formas, além de embelezar, tornando mais agradáveis, os ambientes humanos.  Os guerreiros "produzem" proteção e são símbolos da coragem. Os eruditos são produtores e guardiões do saber e do estudo. E finalmente os padres, que , além de servirem como representantes de Deus, geram, fornecem ou fomentam conforto, elevação espiritual, conselhos e orientações.

Partamos agora para a diferenciação entre verdadeiro e artificial. A ideia de verdadeiro, no texto citado, é relativo, penso eu, ao fato de ser algo que é efetivamente necessário ao Homem; ou seja, está ligada ao fornecimento daquilo que é fundamental para a positiva manutenção das faculdades físicas, intelectuais e espirituais do indivíduo. Já a ideia de artificial, que é atributo daquilo que não é produzido pela natureza, isto é, que tem gênese na elaboração técnica humana², faz com que a classe "artificial do negociante" o seja por surgir de uma conveniência oportunista não indispensável. Pois o negociante simplesmente aproveita-se da oportunidade de tomar o lugar do produtor como vendedor da própria obra. Mas, se o produtor o aceita como intermediário, deve ter lá suas razões.³


Outra característica do negociante "é [ser] responsável por tudo o que é supérfluo", pois vive da  crescente venda de produtos, pouco importando a real necessidade do comprador. Provavelmente haja insinuação do negociante como estimulador do consumismo, já que age lançando mão de todos os meios excitatórios do fetiche e desejos do comprador. 

É dito também que o negociante é responsável "por toda mudança sem progresso" .O progresso, ainda que possa ser para o pior, aqui tem a conotação de melhoria valiosa, de evolução para o bem. Mas como a satisfação e o trabalho do negociante (conotação dada pelo texto) é o de obter, através da venda, lucros exorbitantes, ampliando, tornando extensivo e incitando o desejo e fetiche consumistas dos possíveis clientes, em detrimento de todo tipo de prejuízos causados pela ganância pessoal do mercador, o que há efetivamente é uma mudança de estado para um estado inferior e precário de consciência e autossustento da sociedade.


E ,finalmente, o negociante é responsável "por todo consumo sem uso."  Interpreto como compra sem uso. O desejo fetichista estimulado faz com que o indivíduo adquira produtos e bens dos quais não necessita e que ficarão sem o devido uso. 


Notas:

1 - Bom, provavelmente haja conhecimentos, técnicas, algum tipo de "obra" e riscos no ofício de negociante, mas...
 (Teremos que analisar as motivações e consequências do produzido.)  

2 - elaboração técnica humana também existe em todas as outras "classes", mas têm a essência delas na real necessidade.

3 - Questões que surgem, mas não creio serem pertinentes ao corpo do texto: O que torna o negociante importante e necessário ao produtor? A ganância ou necessidade do produtor dá trabalho ao negociante? O produtor só vende ou troca o que tem sobrando no estoque, senão estraga. Agora, por que produzir mais (quando é escolha do produtor) do que vai utilizar ou trocar? O negociante desvaloriza o produto frente ao produtor e supervaloriza-o ao comprador? No final, quem ganha com o comércio, o negociante ou o produtor?



Referência bibliográfica:

TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979 [?].

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