segunda-feira, 12 de junho de 2017

O matemático-poeta, a poesia-ciência e a matemática-arte


     A análise seguinte é feita a partir de citações do livro Shibumi, do escritor Trevanian.

A pessoa tem de ser tanto um matemático quanto um poeta. Como se a poesia fosse uma ciência ou a matemática uma arte.” - p. 76.

Aqui, Nikolai Hel, personagem principal do livro, quando ainda criança, dá sua opinião sobre as qualidades que um jogador de Go, um antigo e complexo jogo de tabuleiro chinês, deve ter. O fato de ele ser criança, naquele momento, não tira a pertinência e a profundidade do que disse. Isso é percebido até pelo mentor, pai-adotivo de Nikolai, Kishikawa-san.

O jogador deve “de ser tanto um matemático quanto um poeta.” O matemático é aquele que tem apreço pela abstração que se torna tangível pela fórmula, pelo gráfico; por sua aplicação prática; pela lógica pura, pela aplicação (e criação) de ferramentas matemáticas e pela prova da validade do método e da verdade dos resultados obtidos através dessas ferramentas.

Já o poeta, que também tem apreço pela abstração, mas de forma diferente da do matemático, pois aquele busca expressar a beleza abstrata dos sentimentos por meio das palavras (podemos aqui estender a essência do poeta para todo artista, quer faça uso da cor, da forma, do volume, do gesto, do movimento, do som, etc). Nesse caso, a percepção do próprio sentimento ou a busca por interpretar o sentimento do outro faz com que o poeta sinta o desejo de expressá-lo com beleza.

Continuando: “Como se a poesia fosse uma ciência ou a matemática uma arte.” A poesia não é ciência, porque não necessariamente se baseia em processos de comprovação e execução rígidos, mas passa pelo filtro da personalidade, do conhecimento e da idiossincrasia do poeta. Sendo assim, um mesmo estímulo desencadeará variadas expressões formais em indivíduos diferentes. Mas, aqui, creio eu, a poesia como ciência é a necessidade do jogador conseguir, a partir da configuração estética e dialógica do jogo naquele momento, traçar estratégias que harmonizem a “fórmula” da jogada com o sentimento expresso pelo estado do jogo, ou seja, pelo nível de dificuldade da situação que o jogador está exposto naquele dado momento, dentro do jogo.

A matemática como arte é o uso das possibilidades e, digamos, dos mecanismos matemáticos, como ferramentas de expressão de beleza e harmonia. Aqui o uso dessas ferramentas, que são puramente intelectuais, são ditados pela percepção da beleza sentida pelo jogador durante a partida. A matemática não é uma arte, já que a arte possui muito maior liberdade de expressão e de poética.

Portanto, não é uma questão de somente fazer jogadas exitosas, mas sim a sensação pessoal de que elas foram as mais belas naquela situação. Entendamos como belas as jogadas harmoniosas e eficientes, algo como epifanias “voluntárias”. A matemática como arte fala sobre o uso mental de artifícios lógico-matemáticos durante a partida, pelo jogador; mas um uso não literalmente racional, e sim intuitivo como meio de gerar beleza através do jogo.

Um jogador matemático-poeta , ou seja, o que faz uso da poesia-ciência e da matemática-arte, é aquele que, invariavelmente, chega a melhor jogada, porque ela está em harmonia com a lógica e a intuição, com o belo e com o provável.

Referência bibliográfica:

TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.



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