segunda-feira, 12 de junho de 2017

Shibumi: a simplicidade complexa


Continuando, nesta citação está a massa conceitual que define Shibumi:

 “Como sabe, shibumi tem muito a ver com um acentuado refinamento sob uma aparência comum. É uma declaração [...], tão verdadeira que não precisa ser real. Shibumi é compreensão, muito mais do que conhecimento. [...]. Na arte, onde o espírito de shibumiassume a forma de sabi, é uma simplicidade elegante, uma brevidade articulada. Na filosofia, onde shibumi emerge como wabi, é uma tranquilidade espiritual que não é passiva; é o ser sem a angústia do vir a ser.” – p. 81.

Vamos à análise:

Como sabe, shibumi tem muito a ver com um acentuado refinamento sob uma aparência comum.”

A essência do primeiro período está em “(...)um acentuado refinamento sob uma aparência comum.”. Parece-me algo como o complexo aparentando simplicidade: Como o movimento dos ponteiros de um relógio, que não revela o intricado e complexo mecanismo que possibilita esse movimento. Torna-se comum porque se repete e é visto por todos os lados em todos os relógios de ponteiros, mas o segredo do relógio-ponteiro é seu mecanismo interno. O movimento circular dos ponteiros é o efeito dos processos internos da máquina do relógio. Os elementos e processos envolvidos com todas as suas implicações na produção desse movimento, juntamente com o seu efeito, é o Shibumi do relógio. Shibumi é um aperfeiçoamento para uma finalidade, ainda que puramente interior. É um aperfeiçoamento útil, mas nem sempre prático. É a simplicidade originada da complexidade.

Mas e na arte, como isso se dá? Se dá na busca do artista em adequar seu eu à beleza, e não só na busca, mas na efetiva realização material do que foi buscado. Não há que haver necessariamente um grande esforço na confecção material, mas um enorme apuro e esforço na concepção e realização interna. O resultado é consequência. Isso porque “sob um aparência comum” está “um acentuado refinamento”. As obras de Modigliani são um excelente exemplo disso: beleza fruto da simplicidade complexa.

É uma declaração (...), tão verdadeira que não precisa ser real.”

Declaração é o que é dito, é o que se alega sobre algo, mas talvez ,nesse caso, seja uma declaração especificamente pessoal-interna, ou seja, de si para si mesmo. O indivíduo tem consciência da própria verdade, e ,para isso, não há necessidade de outro ter certeza sobre esta verdade (ou da possibilidade da existência de alguma verdade a ser declarada). Outro ponto importante da citação é “não precisa ser real.” Não precisa, mas pode ser real (na verdade, é sempre real, ao menos quero crer assim. Explico a seguir). 

Mas como pode ser verdadeira sem ser real? Penso que real, no texto, quer dizer algo no campo do palpável, do manifesto, do conhecido pelo outro. Algo que alguém saiba ser real é real e concreto para o que sabe, e uma possibilidade, uma incerteza, uma irrealidade talvez, para o que não a conhece,ou melhor, para o que não tem comprovação dela. Sendo assim, é possível algo ser verdadeiro e não ser real, ou  seja, ser real e não ser conhecido.


Mas é bem verdade que poderíamos interpretar não precisa ser real.” como sendo pura presunção do indivíduo. Ele não é o que pensa que é na realidade. Mas aí cai por terra toda a essência de excelência e modéstia do Shibumi. Se presumir a própria excelência traz algum benefício concreto para o presunçoso, não sei. Penso que não, mas... que sei eu?

Shibumi é compreensão, muito mais do que conhecimento.”

Tomarei “compreender” como significando ter dentro de si, comportar dentro de si. Faz-se necessário conhecimento externo (reflexão sobre as coisas do mundo) para se chegar à compreensão, todavia esse conhecimento apenas servirá para conhecer o que já estava dentro de si mesmo; ou seja, as potencialidades até então desconhecidas, que é o que Shibumi faz e é, algo como autoconhecimento; mas pontual, focado em determinado sentido (prático, espiritual, intelectual, etc). Creio não haver Shibumi do ser total, não há uma “perfeição pessoal” em todos os campos. Pois creio no “a vida é curta, a arte é longa.” Nota-se que o saber externo é meio para que o saber interno se expresse. 


Na arte, onde o espírito de shibumi assume a forma de sabi, é uma simplicidade elegante, uma brevidade articulada.”

"Na arte, onde o espírito de shibumi assume a forma de sabi, (...)", o espírito, obviamente, é a parte invisível, a parte imaterial, que tem que ser expressa de alguma maneira, para se fazer conhecida, ou seja , o espírito assume uma forma visível, no caso, através do "sabi".
Sabié a beleza da simplicidade formal. O Shibumi na arte não possui rebuscamento, é apenas o que deveria ser, a exata medida.

A frase diz que Shibumi como Sabi  "é uma simplicidade elegante". O "dicionário do Google" define elegante como: "que se caracteriza pela harmonia, leveza ou naturalidade.". Uma simplicidade harmônica ou leve, ou natural, ou seja, sem mais do que o necessário, sem afetação, espontânea. Simplicidade é a qualidade daquilo que é simples, que , por sua vez, significa  não ser constituído de diversas partes, mas, aqui, é uma simplicidade no que diz respeito ao resultado, ao apresentado; simplicidade como o produto final de uma complexidade interior, oculta.

Shibumicomo Sabi também é "uma brevidade articulada": ou seja, rápida ou curta, porém de muito significado, como uma resposta monossilábica que não deixa dúvida e desencadeia uma longa série de consequências; como um gesto, um sinal que dê completa e clara informação; que seja de compreensão instantânea para o receptor. 

"Na filosofia, onde shibumi emerge como wabi, é uma tranquilidade espiritual que não é passiva; é o ser sem a angústia do vir a ser.”

Vejamos: "é uma tranquilidade espiritual que não é passiva" . Ou seja, não é uma tranquilidade inerte, mas uma tranquilidade de caráter atuante no sentido de que busca uma adaptação ativa e conformativa em relação aos estímulos externos. Não é "passiva", pois não permanece "imóvel" sob a ação externa; a tranquilidade permanece, mas ela se adapta à ação, ao estímulo que incide sobre ela.

Ainda é dito que Shibumi como Wabi "é o ser sem a angústia do vir a ser.”. Parece-me que significa ter certeza do que se é, do próprio valor e de ter chegado a um nível considerável de excelência (o nível pessoal de excelência, que não é comparativo). Nisso não podemos considerar que haja algo de vaidade, que seria contrário à ideia de Shibumi, mas que esse sentimento de "plenitude" não seja considerado como um valor de superioridade em face de outrem; e sim que desse autorreconhecimento, verdadeiramente, nasça a real modéstia.


TEXTO DE REFERÊNCIA COMPLEMENTAR¹

Como complemento,  em "Wabi Sabi – A arte e a beleza da imperfeição"¹,
                                                                            
Encontramos sobre Sabi

"O termo [Wabi-sabi] não possui uma tradução concreta em português ou em qualquer outra língua no mundo. Em uma tradução livre, podemos dizer que (...) Sabi é a beleza ou serenidade que vem com o tempo, quando a vida do objeto e sua impermanência são evidenciados pelo desgaste ou por qualquer conserto visível, as rugas do tempo, objetos irregulares e despretensiosos."


  Sobre Wabi

"O termo [Wabi-sabi] não possui uma tradução concreta em português ou em qualquer outra língua no mundo. Em uma tradução livre, podemos dizer que wabi é a simplicidade rústica, uma elegância discreta, frescor e quietude. Pode também se referir a acidentes ocorridos no processo de construção que conferem singularidades ao objeto." 


E sobre o conceito de Wabi-sabi:

"(...)nos conectamos ao wabi sabi, que cultiva tudo que é autêntico ao reconhecer três realidades simples: nada dura, nada é completo: nada é perfeito."
 "De acordo com Leonard Koren, autor do livro Wabi-Sabi: for Artists, Designers, Poets & Philosophers(...). 'Wabi sabi representa o exato oposto da beleza percebida como algo monumental, espetacular e duradouro. Ele é sobre o secundário, o escondido, a tentativa e o transitório, coisas tão sutis e instáveis que são invisíveis aos olhos medíocres'”.
"A filosofia do wabi sabi abrange tanto as coisas naturais, orgânicas, quanto os objetos feitos pelo homem. Da espiritualidade até as questões de comportamento, hábitos de vida e estética. Se um objeto ou expressão consegue trazer em nós um senso de melancolia serena, intimidade e um anseio espiritual, então isso pode ser considerado wabi sabi."
"Dentro da imperfeição abordada pelo wabi sabi, entram ainda a assimetria, a irregularidade e a modéstia como atributos de belezaUma simplicidade funcional onde a forma é ditada pela função e reduzida à sua disposição mais simples.'


[Gostei da ideia de "cultivar tudo que é autêntico"; de "o escondido"; de "coisas tão sutis e instáveis que são invisíveis aos olhos medíocres" ("olhos medíocres"!); de "um objeto ou expressão" que traz "intimidade e um anseio espiritual"; e de "a modéstia como atributo de beleza".]


Referência bibliográfica:

TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.

1 - <http://reviewslowliving.com.br/2016/02/17/wabi-sabi-a-arte-e-a-beleza-da-imperfeicao/> Acesso em 13.12.16


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

Não sei se estou me repetindo

 A morte torna (quase) tudo aqui banal. Ah, que vanidade somos!

Postagens mais visitadas

Visualizações de página