O livro Shibumi traz um interessante conceito da palavra japonesa shibumi Num dicionário de japonês-português, shibumi significa adstringência, que, a meu ver, guarda alguma relação com as definições presentes no livro, mas moderação é a mais adequado.
Gosto do conceito de Shibumi, porque ele expressa uma concepção de elevado desenvolvimento pessoal, mas sem a necessidade de exposição às outras pessoas. É uma real, concreta e justificada constatação pessoal de que se chegou a um nível de excelência em determinado campo, seja qual for, que não necessita da aprovação dos demais; ainda que, ao ser demonstrado, certamente, o alto nível de desenvolvimento seria evidente.
De qualquer forma, a comparação far-se-á necessária; pois só se percebe diferenças na relação. Mas o importante aqui não é isso, é antes, superar-se, comparar-se intimamente e tudo isso sem a necessidade de apresentar ao mundo esse desenvolvimento. Utópico? Provavelmente (ou melhor, possivelmente?), mas isso não importa: o que faço aqui é analisar o conceito e as ideias sobre Shibumi que estão no texto, fazendo uma comparação com a poética (na arte). A validade prática do Shibumi não é meu principal interesse. Alegro-me no caminho, não apenas na chegada.
Sempre achei interessante a poética do artista; por que ele faz o que faz, como faz, o que pensa e o que sente sobre a sua arte. Penso que a poética deve somente estar centrada na sinceridade do artista para com a sua própria arte e para com seu autodesenvolvimento como artista. Assim sendo, o conceito de Shibumi se ajusta perfeitamente à poética pessoal artística.
Na arte, obras com caráter Shibumi revelamumaplenitude que vai além da esmerada confecção de um trabalho material; pois elas são o produto de um processo harmônico entre as necessidades internas do artista e a beleza. Porém falar sobre a obra nos levaao fato deque a arte exige exposição, a obra é a inspiradora do belo naquele que não a produziu; entretanto Shibumi não partilha essa mesma necessidade.
Então, como conciliar a não precisão da mostra do Shibumi e a precisão da mostra da arte? Simples: no Shibumi, não há proibição em expor, há uma não necessidade (que parece ser natural ao que alcança esse estado, a religião tem algo disso). Entretanto, como já disse, sem exposição da obra, não há arte; sendo assim, Shibumi contribui apenas com a "perfeiçao" da obra, e não com a exposição (porque o artista alinhado com o Shibumi bem poderia produzir sem expor).
Agora vamos entender o que vem a ser a "perfeição" da obra: Shibumi na obra não necessariamente é demonstrado por uma técnica acadêmica impecável, pode ser, mas não o é obrigatoriamente. Na verdade, acredito que o Shibumi é demonstrado na obra quando a técnica utilizada, acadêmica ou não, é sentida tanto pelo artista que a empregoucomo pelo observador-fruidor como sendo verdadeiramente adequada à expressão da harmonia. Na obra nada falta, foi feitoo que e como deveria ter sido feito.
Obras de Van Gogh, Matisse, Miró e Picasso são exemplos disso. Há sinceridade nelas. Esses artistas buscaram adequar as suas técnicas de desenho e pintura às suas concepções de arte, buscando a real expressão da beleza filtrada através das suas idiossincrasias.
Em seguida, passarei a analisar as passagens que considerei importantes com indicações do conceito de Shibumi presentes no livro homônimo. Posso, entretanto, fazer ou não relação com a arte, tudo dependerá do meu humor e espírito. Mas sinta-se à vontade para interpretanalisar se for o seu desejo.
Comecemos:
“Shibumi, senhor? – Nikolai conhecia a palavra, mas apenas quando aplicada a jardins ou a arquitetura, quando sua conotação é de uma beleza moderada.” – p. 81.
Acima há a referência ao Shibumi aplicado “a jardins ou a arquitetura” evidenciando “uma beleza moderada.” Nesse caso, só a noção de moderação é importante para nós, pois Shibuminão é sofisticação vazia e berrante nem o retrato da precariedade:éuma beleza que agrada sem intimidar e que se ajusta às necessidades do fruidor (relaciono “a jardins ou a arquitetura”). É o suficiente e adequado. Moderação é, segundo o dicionário do Google, o “afastamento de todo e qualquer excesso.” (para mais e para menos).
Referência bibliográfica:
TREVANIAN, Shibumi; Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. São Paulo: Círculo do Livro S.A, 1979.
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